No começo da epidemia, as pessoas muitas vezes não viviam mais do que dois anos após desenvolver a doença. Ao estudar o modo como o vírus ataca as células imunológicas, os cientistas desenvolveram drogas que impedem que o vírus se multiplique. Usadas em combinações conhecidas como “coquetel”, essas drogas têm ajudado os portadores do HIV a viverem mais.
Diante dos avanços na terapia anti-HIV, é possível reconhecermos o aumento do número de pessoas que contraíram o vírus há mais de 15 anos e que estão envelhecendo com a doença. Apesar disso, ainda não existem estudos que tratam do processo de envelhecimento das pessoas que convivem com o HIV/aids.
Até meados dos anos 80, quando os métodos para seleção de doadores e controle de sangue não eram tão rigorosos, a transfusão sangüínea representava o principal fator de risco para aquisição do vírus HIV nesta faixa etária, chegando a ser apontada como responsável pela maioria das contaminações ocorridas em pessoas com 60 anos e mais. Atualmente, observamos que a maioria dos casos de aids nos pacientes nesta faixa etária pode ser atribuída ao contato sexual ou ao uso de drogas injetáveis.
Pesquisas na área médica atribuíram o aumento da incidência de HIV/aids entre os idosos aos tratamentos hormonais, às próteses e aos medicamentos como o Viagra, que estão ampliando a vida sexual da população idosa. Aliado a isso, existe uma grande falta de informações sobre a doença, preconceitos contra o uso de preservativos e ausência de ações preventivas voltadas para a terceira idade.
O uso de preservativos, por exemplo, é muito problemático: como as mulheres estão no período pós-menopausa e sem risco de engravidarem, acreditam que não precisam de proteção. Há, também, o preconceito quanto ao uso de preservativos pelos homens mais velhos.
No estudo[1] realizado com pacientes idosos portadores do HIV no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, observou-se um fato complicador para o tratamento da doença nesta faixa etária: a demora no diagnóstico. Na maioria dos casos, a doença foi confundida com outras, devido aos preconceitos dos médicos que não solicitaram testes laboratoriais para sorologia de HIV.
A infecção pelo HIV é freqüentemente diagnosticada no idoso apenas depois de uma investigação extensa e por exclusão de outras doenças, o que atrasa o diagnóstico e o tratamento.
Todos os entrevistados foram contaminados pelo HIV através de contatos sexuais desprotegidos e descobriram ser portadores do vírus HIV somente quando tiveram alguma infecção sem causa definida e, após uma série de investigações diagnósticas e exclusões de algumas doenças.
Isso mostra como a aids aparece como uma doença distante da realidade e da vida de pessoas idosas. O próprio idoso se vê como uma pessoa afastada da exposição ao vírus; como pertencente a um grupo inatingível pela infecção pelo HIV.
Neste estudo, discutimos com idosos contaminados pelo HIV sobre como suas experiências podem contribuir com as medidas preventivas em torno da aids, já que até o presente momento, pouco ou quase nada se tem feito em relação aos idosos, no sentido de frear um possível avanço da epidemia da aids neste grupo etário. Também procuramos levantar dados para que profissionais de saúde observem mais atentamente os sintomas que podem sugerir o diagnóstico de aids, buscando evitar uma possível expansão da doença entre pessoas idosas.
A associação da aids com a homossexualidade e a bissexualidade surgiu a partir da notificação dos primeiros casos, que foram identificados como homossexuais masculinos, jovens e de classe média alta. Este estereótipo foi amplamente divulgado e incorporado no início da epidemia e continua presente no imaginário da população. Além disso, outras imagens tomaram corpo na imaginação popular: a das prostitutas, travestis e usuários de drogas.
(...) Isto explica porque a população vem percebendo a doença através de representações negativas sobre os grupos mais atingidos inicialmente. A aids passa a ser representada, desta forma, como a doença do outro. (Paulilo, 1999: 48)
Paulilo (1999), discutindo a aids como um “constructo” social, afirmou que:
A suposta seletividade da doença para com um determinado grupo ou um determinado modo de vida criou uma primeira representação para o fenômeno: na homossexualidade poderia estar a sua origem o que tornaria os homossexuais uma população considerada, na terminologia epidemiológica “de risco”. O uso da expressão “grupo de risco”, embora comum no âmbito da epidemiologia, marcaria de forma indelével a construção social e histórica da aids.
Nos discursos dos interlocutores, a contaminação pelo HIV aparece como algo “fora do lugar”, pois como muito se divulgou e ainda hoje é divulgado nas propagandas e campanhas contra a aids, a doença atinge somente pessoas jovens, que variam freqüentemente de parceiros e com uma vida sexual pouco convencional.
Quando falamos em aids, a primeira imagem que surge da doença é sua associação com a noção de grupo de risco e de morte. Assim, a aids aparece como uma “doença do outro” ou como algo distante das pessoas “ditas normais’ e, reservada apenas a determinados segmentos da população.
É interessante destacar que nos recentes estudos sobre aids entre idosos, um dado sempre presente é de que os próprios se consideram um grupo imune ao vírus, já que desde o início da epidemia, nos anos oitenta, as imagens atreladas à doença, eram ligadas apenas aos grupos inicialmente mais vulneráveis, como os homossexuais, usuários de drogas injetáveis, jovens heterossexuais e os profissionais do sexo e, mais recentemente adolescentes e mulheres casadas. Pouco ou quase nada se fala a respeito de uma possível disseminação da epidemia entre pessoas mais velhas.
O estigma que nasceu junto com a doença e a acompanha é um dos principais fatores que dificultam a prevenção da doença em determinados grupos da população. A principal dificuldade é garantir que as discussões em torno da doença estejam presentes no cotidiano da população, procurando atingir os grupos até então considerados pouco vulneráveis à epidemia, como os idosos.
Referências bibliogáficas
PAULILO, M.A.S. AIDS: Os sentidos do risco. São Paulo: Veras, 1999.
Autora: Nadjane Bezerra do Amaral Prilip
retirada do site: http://www.portaldoenvelhecimento.net/pforum/aids2
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